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domingo, 17 de junho de 2012

Carnavalizando o tempo [perdido]


Menino descalço vagando pelas ruas,
Perdido , fétido e esquecido
Hoje, só tenho meu eu esvanecido.
Fome de justiça,
Sede de amigos
Que lutem por mim
                      E outros meninos?
Nos becos e bocas,
Cheirando o sangue do último encontro,
Pedindo socorro
Assim como eu.
Rostos estão pintados pelo pó,
A fantasia não esconde os dedos queimados,
Última pedra.
Perfume da erva.
                    Quem puxa o samba?
Os “homi fardado".

Sem harmonia,
Eu saio da avenida
E ao som do tiros, me despeço
De mais um irmão,
De mais um menino,
De outro esquecido, dito bandido.
 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Setembro de 1970

As ruas estão estreitas,
As luzes estão apagando-se.
Nos bares, eu vejo sorrisos,
Sorrisos genéricos.
Inalo odores putrefactos,
Que se misturam aos doces perfumes.
A chuva começa a tocar minha pele,
Enquanto essa overdose corrompe toda conduta descartável e superficial.
É o remédio antimonotonia,
Antimoralismo,antifanatismo,antipreconceito,anticomodismo.
Altas doses,
Frequentes convulsões.
As luzes acenderam-se,
Os olhos impugnantes insistem em dizer :
"Comece por você"
Joguei tudo na mala,
Dessa vez meu destino não foi a estação rodoviária,
Nem efêmeras doses de compaixão.
O destino é o adeus,
É o começo de um caminho sem volta,
É a impetuosa busca por melhoras,
De si próprio, da sociedade que vivo e da que deixarei.
Adeus.



sábado, 23 de abril de 2011

Gratidão

Oh famintos que buscam saciar-se,
e não toleram a fome alheia ,
Sois tão belos,
Sois tão puros,
mas açoitam os ímpios como o próprio demônio
São fontes ,
poços de morte.
Por todo lado estão declarando um falso amor
de braços cruzados.
Ceifam vidas e se declaram sal da terra
com lábios que proferem o julgar.
Cultuam a misericórdia,
desprezam seus semelhantes,
enriquecem com a ignorância.
Festejam a morte do seu senhor,
satisfazem-se com o sangue derramado
e proclamam a fé.
São famintos que buscam saciar-se,
e não toleram a fome alheia,
eternos famintos.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O segredo

- Você se lembra do que aconteceu?
- Não sei...
As mãos juntavam-se em rápidos movimentos. Os pés balançavam na tentativa daquele incomodo amenizar.
- Podemos tentar conversar sobre isso. Você quer?
- Eu não sei. Eu... eu.. eu quero.
- Conte-me.

  Aquele dia tinha sido exaustivo, foram processos e mais processos em minha mesa. Chegando em casa, ela estava na cozinha pegando os pratos para o jantar, dei um beijo em sua face. Ele estava na sala com a sobrinha da minha esposa assistindo ao filme. Subi para tomar banho. Logo após 20 minutos estava ali. Jantávamos e conversavamos, felizmente...

- Você está bem?
- Sim, estou.

As mãos transpiram.Sente os batimentos cardíacos acelerarem. Eduardo continua.

Ao terminar, pedimos para as crianças se arrumarem para dormir, pois eu  já estava subindo para contar a história. Sentei na cadeira em frente as duas camas. Ela... ela era linda. Não conseguia parar de olhá-la. Vi que o Pedro já estava a dormir enquanto ela revirava de um lado para o outro - era o que eu precisava. Sentei ao lado da cama. E meus dedos ...

 
Eduardo dá uma pequena pausa e respira,prossegue.

O medo me dominava. Eu não queria sentir aquilo, mas eu não conseguia me controlar. Eu.. eu.. eu precisava estar perto dela, não queria fazer mal, não queria machucá-la. Ouvi alguns passos e me assustei, era apenas minha esposa encostando a porta do nosso quarto. Continuei ali por mais alguns minutos e fui para o quarto. A necessidade tomava conta da minha mente, do meu corpo. Eu me sentia extasiado ao estar perto dela, evitava por diversas vezes. Nas noites que minha mulher a levava para casa,eu ficava atormentado - era o meu doce anjo diante de mim, só queria cuida-la.

- Você entende?! EU NÃO CONSIGO CONTROLAR !
- Acalme-se Eduardo, não estou aqui para te julgar.
- Eu sei, eu sei. Me ajude, eu preciso.

 O silêncio que pairava foi quebrado com o som do choro de Eduardo, que disse :

Abri a porta cuidadosamente e fui ao quarto das crianças, o relógio marcava 2:30. Ela estava dormindo, meus olhos estavam estagnados sobre aquele pequeno corpo coberto pelo lençol branco florido. Sentia-me atraído, o desejo estava ai. Senti culpa. Cheguei mais perto do meu doce anjo, toquei aquela pele macia, ela abriu os olhos e eu sorri. As minhas mãos suavam,sentia o sangue correr por todo meu corpo e minha respiração estava ofegante - queria mais daquele perfeito corpo. Minhas mãos deslizaram sobre suas pernas. Hesitei. Olhei para o Pedro. Eu não podia, não podia ! Então, eu sai do quarto . O corpo trêmulo de desejo e angústia.

- Eduardo, ela não manisfestou medo?
-Não. Ela confiava em mim.
- Confiava?
-Sim. Porque eu a preparo durante meses.
- Há quanto tempo?
[silêncio]
- Há quanto tempo, Eduardo?
- Um ano e meio.

Um silêncio duradouro e ao fundo uma voz calma diz : Obrigada, Eduardo. 


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

romance urbano

Estava impregnada pelo odor fétido , o longo cabelo negro estava preso  por algum pedaço de tecido  que foi encontrado na noite anterior. Ela compartilhava do mesmo prazer entorpecente, o qual corrompia todos os corpos presentes no local, em cada inalar aquilo entranhava-se em seu corpo – um breve efeito.Durante os sete últimos meses, era ali que ela se encontrava.Seres de todas as cores e formas rastejavam sob seu corpo consumindo-a.
Em algumas noites, tocavam aquela pele marcada por cicatrizes, eles beijavam os seios , mordiam os lábios sem cor - ela vendia seu corpo para ter míseras doses delirantes.Quando estava ali desencontrava-se. Tão apaixonada que perdia-se em si, era consumida vorazmente e no final sabia que era apenas mais uma esperando por ajuda, pois sua própria vontade tornava-se insuficiente frente à aquela prisão química.
Ela só precisa de um olhar , de uma ajuda como tantas outras Helenas.